O exemplo que fica
A morte do ditador Gaddafi encerra de uma vez por todas um regime de governo autoritário de 40 anos na Líbia. Mas integra outro rol de consequências também.
Saddan Hussein em 2006, Osama Bin Laden em maio de 2011(?) e agora Muammar Gaddafi. Em poucos anos, o mundo assistiu a execução de três líderes políticos criminosos e perigosos, dois chefes de governos autoritários e um terrorista há muito existindo como uma mácula no processo de democratização do mundo. Contudo, a democratização surge diametralmente oposta ao conceito de solução para inúmeros países do Oriente, oriundos de processos históricos e culturais diferentes. Por isso, devido a tal conjectura, deveria ter havido muito mais cuidado na forma de condução das intervenções.
Executar (ou assassinar, ou deixar assassinar) os dois líderes autocráticos e o terrorista não é espalhar os princípios democráticos a outros povos, mas forçar garganta abaixo uma fachada de democracia, afinal de contas, a mera execução sem um julgamento e o devido processo legal são antônimos das garantias primordiais do molde democrático; como é possível combater o autoritarismo passando por cima dos princípios mais básicos do Estado de Direito?
Hussein, Bin Laden e Gaddafi seriam invariavelmente condenados, e poderiam servir muito mais ao mundo permanecendo presos que tendo expostos seus corpos enforcados ou ensaguentados, para que seus seguidores deixassem de vê-los como líderes e passassem a vê-los como mártires. Um Osama Bin Laden prestando serviços em regime prisional inspira muito menos o revanchismo que um corpo exibido como prêmio de guerra.
Nessa luta de fachada por democracia, o que se está fazendo, na verdade, é boicotá-la. Deixar os tribunais penais internacionais ociosos diante de questões tão impactantes como a captura e possibilidade de inserir esses três nomes na história da evolução da justiça das civilizações, é minar todo o idealismo da criação dos organismos de cooperação internacional do pós-2ª guerra, é institucionalizar o “vence quem é mais forte” ao invés do “vence quem tem razão”.
No caso da captura de Hussein, Bin Laden e Gaddafi, o devido processo legal era menos um direito deles que de toda a população mundial. Com a execução clandestina efetuada, que exemplo ficou para o mundo? Estamos levantando uma bandeira de democracia e agindo como os Cruzados na Idade Média?
Por Maricy Ferrazzo






