sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PODER


O exemplo que fica
 

A morte do ditador Gaddafi encerra de uma vez por todas um regime de governo autoritário de 40 anos na Líbia. Mas integra outro rol de consequências também.
 
Saddan Hussein em 2006, Osama Bin Laden em maio de 2011(?) e agora Muammar Gaddafi. Em poucos anos, o mundo assistiu a execução de três líderes políticos criminosos e perigosos, dois chefes de governos autoritários e um terrorista há muito existindo como uma mácula no processo de democratização do mundo. Contudo, a democratização surge diametralmente oposta ao conceito de solução para inúmeros países do Oriente, oriundos de processos históricos e culturais diferentes. Por isso, devido a tal conjectura, deveria ter havido muito mais cuidado na forma de condução das intervenções.

 Executar (ou assassinar, ou deixar assassinar) os dois líderes autocráticos e o terrorista não é espalhar os princípios democráticos a outros povos, mas forçar garganta abaixo uma fachada de democracia, afinal de contas, a mera execução sem um julgamento e o devido processo legal são antônimos das garantias primordiais do molde democrático; como é possível combater o autoritarismo passando por cima dos princípios mais básicos do Estado de Direito?

Hussein, Bin Laden e Gaddafi seriam invariavelmente condenados, e poderiam servir muito mais ao mundo permanecendo presos que tendo expostos seus corpos enforcados ou ensaguentados, para que seus seguidores deixassem de vê-los como líderes e passassem a vê-los como mártires. Um Osama Bin Laden prestando serviços em regime prisional inspira muito menos o revanchismo que um corpo exibido como prêmio de guerra.

Nessa luta de fachada por democracia, o que se está fazendo, na verdade, é boicotá-la. Deixar os tribunais penais internacionais ociosos diante de questões tão impactantes como a captura e possibilidade de inserir esses três nomes na história da evolução da justiça das civilizações, é minar todo o idealismo da criação dos organismos de cooperação internacional do pós-2ª guerra, é institucionalizar o “vence quem é mais forte” ao invés do “vence quem tem razão”.

No caso da captura de Hussein, Bin Laden e Gaddafi, o devido processo legal era menos um direito deles que de toda a população mundial. Com a execução clandestina efetuada, que exemplo ficou para o mundo? Estamos levantando uma bandeira de democracia e agindo como os Cruzados na Idade Média? 


Por Maricy Ferrazzo

terça-feira, 21 de junho de 2011

ECONOMIA


Idiossincrasias da globalização


Para quem não sabe, a Foxconn é a empresa que emprega trabalhadores chineses na fabricação de eletrônicos como o IPad da Apple. A China é um dos países economicamente emergentes com o maior déficit de leis trabalhistas do mundo; ou seja, é para lá que as multinacionais vão quando precisam de mão-de-obra barata e desprotegida legalmente.

De acordo com inúmeras notícias divulgadas na imprensa internacional, a Foxconn em sua ‘estadia’ na China já teve que lidar com inúmeros incidentes em ambiente de produção, como o suicídio de funcionários oprimidos com as condições de trabalho, e recentemente, na unidade da República Tcheca, com o envenenamento alimentar de outros cinco funcionários.

Contudo, a despeito das insondáveis condições de trabalho de seus funcionários, a Foxconn aparece como um perfeito exemplo do que o lado obscuro da globalização pode fazer. É só atentar para o ciclo de produção do IPad frente ao consumidor chinês. Montadora do produto eletrônico, a Foxconn emprega os chineses que produzem o aparelho. Dali, ele segue para a Apple, que, aprovando as mesmas unidades, as exporta de volta para a China com o preço “da marca”, e os consumidores chineses compram de volta o que ali foi fabricado por muito mais que o custo da fabricação in loco. E o mais irônico: ainda leem “Made in China” no aparelho.


Por Maricy Ferrazzo


quinta-feira, 31 de março de 2011

LÍBIA

De boas ideias o inferno está cheio
 
Armar os rebeldes. Essa é uma das possibilidades pensadas pelo presidente Obama para “equilibrar” as forças de batalha na Líbia. O raciocínio do presidente norte-americano é colocar armamento nas mãos de centenas de civis sem nenhum treinamento militar para deporem o ditador Muammar Gaddafi.

Contudo, faltou nesse raciocínio considerar o que poderá acontecer com a população líbia. Dificilmente se estanca o sangue de uma batalha fornecendo armas. Obviamente que, então, é necessário analisar quais são as prioridades.

Tal brilhante ideia de Obama faz recordar uma iniciativa parecida, quando os EUA deram treinamento militar aos afegãos durante o término da Guerra-Fria para combater a União Soviética, com armas de alta potência, as táticas e know-how militares, entre eles até mesmo como pilotar um avião. Bom, todo mundo parece se lembrar como essa ideia terminou, exatamente em 11 de setembro de 2001.

Por sorte, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) descartou prontamente a possibilidade de treinar ou dar armas aos rebeldes líbios, alegando exatamente o temor do que poderia acontecer com essas armas e o conhecimento militar depois que o conflito estivesse acabado.

Ufa! Que bom que alguém anda estudando História!


Por Maricy Ferrazzo

 
Fonte e imagem: Washington Post














sábado, 12 de março de 2011

JAPÃO

Interdependentes
 
A despeito de todas as trajetórias individuais da humanidade ao longo da História, nada traz de forma tão intensa a sensação de nossa interdependência como uma reação geofísica de forte magnitude, como o abalo sísmico ocorrido na última sexta-feira no litoral do Japão.
 
Atravessamos o tempo levantando as mais diversas bandeiras, a da liberdade, a da independência financeira, a da superioridade bélica, a político-ideológica, entre tantas outras; mas nenhuma prerrogativa consegue eclipsar a unânime consciência da vida em convivência na Terra.
 
Infelizmente, é durante catástrofes como a de Sendai que voltamos a nos reconhecer como um corpo só, não mais uma nação, ou um tipo-étnico, ou um gênero ou espécie, mas todos seres vivos compartilhando o mesmo planeta, todos suscetíveis aos rumos que o globo como um corpo vivo vier a tomar.
 
Provavelmente, a noção de interdependência já ganhou conotações bastante negativas. A ordem econômica, por exemplo, nos ensinou isso em 1929 e mais recentemente em 2008 com as crises financeiras; ou bem mais anteriormente, séculos atrás na História, a aproximação inevitável dos povos sofreu com as epidemias generalizadas. Porém, há uma forma de aliviar o peso e os perigos de nossa hoje mil vezes mais intensa interdependência, e ela está na solidariedade.
 
Solidariedade, antes de tudo, para com a vida. A partir das imagens da onda que assolou o litoral japonês, a 700 km por hora, é possível perceber que, apesar de todas as invenções das quais se orgulha o homem (carros, construções, usinas nucleares), ainda assim precisamos de solidariedade para sobreviver.

Por Maricy Ferrazzo
 
Imagem: New york Times

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

ONU

Brasil na presidência do Conselho de Segurança


Durante o mês de fevereiro a embaixadora do Brasil junto às Nações Unidas, Maria Luisa Ribeiro Viotti, presidirá o Conselho de Segurança, prometendo focar sua atuação na segurança face ao desenvolvimento, ou seja, defendendo que as tentativas de erradicar a pobreza poderão diminuir os problemas relacionados à segurança no Brasil e nos outros países. É a primeira vez que uma mulher brasileira assume o posto.
 
A presença de cada país-membro na presidência do CS é rotativa, mensal. Em março, assumirá a China.
 
Essa é uma oportunidade de o Brasil buscar mais destaque em assuntos envolvendo segurança, já que ambiciona ocupar um dos cinco postos permanentes do Conselho. A pauta do Conselho presidido pela embaixadora brasileira inclui questões sobre o Haiti, Timor-Leste, Sudão, Oriente Médio, Burundi, República Democrática do Congo, Libéria, Líbano, Guiné-Bissau, Coreia do Norte, Somália e Kossovo.
 
Em se tratando de segurança, especialmente quando necessária a partir de problemas relacionados à pobreza e falta de infraestrutura, certamente o próprio Brasil deveria estar presente na pauta.

 
Por Maricy Ferrazzo


 
Fontes; Terra e UN Security Council - www.un.org
Imagem: Luiz Rampelotto/ Europa Newswire

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

SOCIEDADE


Aqui não!
Alemanha veta presença de câmeras de localização do Google em nome da privacidade

Em oposição à aceitação em geral que o recente recurso do Google, o Street View, tem recebido pelo mundo, a Alemanha barrou a presença das câmeras de captação de imagem em 360° que a empresa vem circulando por diversos países. A prerrogativa alemã é a da preservação da privacidade, já que o alcance das imagens não se limita a regiões turísticas ou comerciais, mas também visa divulgar imagens de bairros residenciais de todo o mundo.
 
Obviamente que há certo fascínio na possibilidade de poder ver qualquer pedaço do planeta pelo computador, contudo, tal privilégio pode ser ao mesmo tempo motivo de incômodo para alguns. Na verdade, como consequência axiomática das tecnologias de imagem e informação, surge uma espécie de contracultura avessa à exposição extremada que nossa atualidade inspira e aprova.
 
Na sociedade contemporânea, o privado se tornou público. O sociólogo Zygmunt Bauman já escreveu sobre o assunto, em obras como Vida para Consumo (Jorge Zahar, 2007). Bauman analisa a sociedade de hoje e constata que a inclusão, muitas vezes, se dá a partir da exposição da vida pessoal no ambiente público da internet. Seria como uma ilusão onde o que não consta nos espaços virtuais públicos não recebe crédito de que ocorreu realmente.
 
Acontece que a tendência de exibição já está tomando forma de uma superexposição, e fazendo com que as pessoas menos prevenidas não saibam lidar com a velocidade e vulnerabilidade da rede, capazes de transformar uma simples foto ou informação no pesadelo de alguém.
 
Talvez por isso os sites sociais estejam recebendo dos usuários do mundo todo reclamações quanto à dispersão das informações postadas nas páginas pessoais; o que é paradoxal, pois enquanto os usuários querem poder controlar a quantidade de informações pessoais, as redes sociais precisam tornar a navegação mais atraente.
 
Pode-se concluir que o importante é não perder o controle sobre a própria privacidade, buscando sempre selecionar as informações, de forma a não desconhecer as implicações do uso da web, até mesmo porque quem sabe utilizá-la bem consegue muitos benefícios. No caso da Alemanha, o notável é que a restrição partiu da população, mais um fato que demonstra como o recém-descoberto território virtual ainda irá gerar muitas discussões e criar a necessidade de diversas adaptações, incluindo as várias dimensões da organização social.

 
Por Maricy Ferrazzo
 
Fontes: BBC News e AFP
Imagem: spiegel.de

terça-feira, 31 de agosto de 2010

MERCOSUL


Integração em teoria

Chegando a duas décadas de existência, Mercosul ainda é território inexplorado

Em quase vinte anos da existência do Mercado Comum do Sul, a integração regional pretendida continua simbólica. Embora o bloco seja visto favoravelmente pelos países sul-americanos como uma forma de diminuir o poder da influência econômica dos Estados Unidos sobre a região, não há, até o presente momento, um engajamento concreto dos países, engajamento esse que não se limitaria somente à ratificação do Tratado, mas ao apoio real do essencial objetivo do bloco, a integração.

A integração pretendida pelo Mercosul, embora focada na questão das relações econômicas, não se limita a elas, na verdade abrange a comunicação cultural e social entre seus países-membros. Contudo, até mesmo o esforço da regulação e harmonização das leis aduaneiras não se consumou. O bloco encontra dificuldades aparentemente indissolúveis quando o assunto é coordenar as economias dos países vizinhos de forma a uniformizá-la para a intensificação e parceria comercial, como pretendido pelo Tratado de Assunção (1991) com a criação de uma zona de livre comércio. Porém, o Mercado Comum do Sul não agrega países cujas economias permitiriam suplantar uma tarifa externa comum. Ao mesmo tempo, o Mercosul não tem poder suficiente para agir aos moldes da União Europeia, financiando os países mais pobres para que a integração possa se concretizar.

Como se já não bastasse a lacuna existente entre a teoria e a prática da integração regional, recentemente o Mercosul permitiu os acordos de livre comércio com Israel (2007) e Egito (2010). Não que o bloco regional não devesse estabelecer parceria com países de realidade exógena, mas que tal iniciativa deveria vir depois que este já estivesse coerentemente fortalecido.

Além das contradições econômicas, há ainda a recorrente discussão política, minando a base sedimentar do Mercosul: a união. O desencontro das posturas políticas se exemplifica na recusa do parlamento paraguaio em ratificar a entrada da Venezuela no bloco; assim como o Chile não abandona a condição de mero associado por ainda ter questões territoriais mal resolvidas com a Argentina.

Contudo, talvez o mais destoante na existência do bloco seja o distanciamento cultural entre seus países-membros. Mesmo com a Área de Livre Residência com direito ao trabalho e a ausência de formalidades para trânsito entre os países signatários, o intercâmbio cultural sul-americano ainda é muito pobre. Um exemplo de como países geograficamente vizinhos podem estar em extremos distantes cultural e socialmente. Tal fato deveria suscitar mais interesse, pois é fatalmente um dos motivos pelos quais o avanço do bloco regional ainda não adquiriu a força que propulsiona mercados e políticas, a força humana.



Por Maricy Ferrazzo